Terça-feira, 1 de Junho de 2004

Um infinito com armazéns em baixo

Quem tenha lido as páginas deste livro, que estão antes desta, terá sem dúvida formado a ideia de que sou um sonhador. Ter-se-ia enganado se a formou. Para ser sonhador falta-me o dinheiro.
As grandes melancolias, as tristezas cheias de tédio, não podem existir senão com um ambiente de conforto e de sóbrio luxo. Por isso o Egeus de Poe, concentrado horas e horas numa absorção doentia, o faz num castelo antigo, ancestral, onde, para além das portas da grande sala onde jaz a vida, mordomos invisíveis administram a casa e a comida.
O grande sonho requer certas circunstâncias sociais. Um dia que, embevecido por certo movimento rítmico e dolente do que escrevera, me recordei de Chateaubriand, não tardou que me lembrasse de que eu não era visconde, nem sequer bretão. Outra vez que julguei sentir, no sentido do que dissera, uma semelhança com Rousseau, não tardou, também, que me ocorresse que, não [tendo] tido o privilégio de ser fidalgo e castelão, também o não tivera de ser suíço e vagabundo.
Mas, enfim, também há universo na Rua dos Douradores. Também aqui Deus concede que não falte o enigma de viver. E por isso, se são pobres, como a paisagem de carroças e caixotes, os sonhos que consigo extrair de entre as rodas e as tábuas, ainda assim são para mim o que tenho, e o que posso ter.
Alhures, sem dúvida, é que os poentes são. Mas até deste quarto andar sobre a cidade se pode pensar no infinito. Um infinito com armazéns em baixo, é certo, mas com estrelas ao fim... É o que me ocorre, neste acabar de tarde, à janela alta, na insatisfação do burguês que não sou e na tristeza do poeta que nunca poderei ser.



Fernando Pessoa, in O livro do desassossego



publicado por lique às 19:40
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28 comentários:
De Anónimo a 2 de Junho de 2004 às 18:39
Encandescente: é verdade amiga, por isso eu acho que ele percorreu e disse todos os nossos sentimentos, até os que odiamos. beijinhoslique
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(mailto:lique2@sapo.pt)
De Anónimo a 2 de Junho de 2004 às 18:16
este Pessoa soube bem dar a volta à cabeça de todos e até hoje lermos e sentimos o mesmo. uma vezes odeio-o outras adoro-o, depende dos dias.mas amando-o ou odiando leio-o sempre. bj liqueencandescente
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(mailto:encandescente@sapo.pt)
De Anónimo a 2 de Junho de 2004 às 17:07
DonBadalo: a minha ideia de agarrar o sonho é agarrá-lo para o realizar. Se o agarrarmos para ficarmos a contemplá-lo ou para o realizar pela metade, estamos na mesma a deixá-lo fugir... acho eu! Bjslique
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(mailto:lique2@sapo.pt)
De Anónimo a 2 de Junho de 2004 às 17:04
MWOMAN: setimo-nos pequenos e um bocado "atados" para comentar, não é? Beijinhoslique
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(mailto:lique2@sapo.pt)
De Anónimo a 2 de Junho de 2004 às 17:02
Anómalia: Parece que ele conseguiu passar por quase todos os nossos estados de alma.Há alguns assim... Beijinhoslique
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(mailto:lique2@sapo.pt)
De Anónimo a 2 de Junho de 2004 às 17:00
L. Van Arle: pois, o álcool pelo menos tem fama de conservar. Já o ópio não sei. De qualquer forma quantos génios não morreram ou viveram consrvados em paraísos artificiais? Beijinhoslique
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(mailto:lique2@sapo.pt)
De Anónimo a 2 de Junho de 2004 às 14:10
Fernando Pessoa e o seu eterno desassossego!Há palavras para comentar este homem?Minhas não, não seria capaz.Mas as tuas escolhas são sempre excelentes.Beijos MWoman
(http://devaneio.blogs.sapo.pt/)
(mailto:siilvam@hotmail.com)
De Anónimo a 2 de Junho de 2004 às 11:16

peço desculpa, Lique, por insistir! a questão não será tanto de a "incapacidade de agarrar o Sonho", mas de o realizar: as capelas inacabadas, as obras de Stª Engrácia, as revoluções inacabadas, etc...etc...

temos, é verdade, o Convento de Mafra, magalómano e absurdo... haja Deus! rsssDonBadalo
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(mailto:DonBadalo@sapo.pt)
De Anónimo a 2 de Junho de 2004 às 10:44
De desassossego em desassossego revemos sempre um pouco de nós em Pessoa. Um bom dia para ti com um beijo.anómalia
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(mailto:anomalia@sapo.pt)
De Anónimo a 2 de Junho de 2004 às 10:43
Oi Lique! Recuso-me a comentar Pessoa... mas uma curiosidade, sabias que quando retiraram o corpo dele para ser transladado, estava perfeitamente conservado? Deve ser do ópio e alcool. BeijosL. Van Arle
(http://www.webtertulia.blogs.sapo.pt)
(mailto:lval@clix.pt)

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