Quarta-feira, 19 de Maio de 2004

Compa

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Palavra sumarenta e seca ao mesmo tempo. Palavra dura e terna que vem de compadre e de companheiro. Repito-a quando a solidão espreita, e ela devolve-me a todos os compas que tenho na Costa Rica, na Nicarágua, em El Salvador, em Chiapas, e especialmente a um que vive em Caleta Chica, perto de Talcahuano, no frio Sul do Chile.
Em 1968 baptizámos o seu único filho com água do mar, porque nasceu junto do Pacífico. Na qualidade de padrinho, ofereci-lhe as suaves peles de ovelha que lhe amornaram o berço, e durante a festa devorámos os mariscos que a minha comadre tinha para oferecer, celebrando com muito vinho a cumplicidade que nascia do calor de nos tratarmos por compa.
O meu compa foi sempre homem de poucas palavras. Muitas vezes cheguei a casa dele, a única rodeada de vasos com gerânios, e mesmo que tivessem passado vários meses sem nos vermos, a sua saudação era: “Que quer comer, compa?” E a minha resposta foi sempre a mesma: “Você sabe, compa”.
..........
Deixámos de nos ver durante quinze anos e, quando me deixaram regressar ao Chile em 1989, a primeira coisa que fiz foi partir para Caleta Chica.
A casa continuava igual, os gerânios pareceram-me multiplicados, mas no semblante da minha comadre a tristeza havia deixado as suas marcas. Perguntei-lhe pelo meu afilhado e ela só conseguiu murmurar: “O mar levou-o”, porque nesse momento apareceu o meu compa.
Abraçámo-nos os três. Estreitámo-nos. Chorámos e, quando tentei dizer qualquer coisa como “lamento”, o meu compadre agarrou-me pelos ombros e, olhando-me nos olhos, perguntou: “Que quer comer, compa?”. “Você sabe, compa”, respondi eu.
Com a gente do Sul do mundo aprendi que a ternura tem que ser protegida com dureza e que a dor não nos pode paralisar. Em 1985, quando uma tempestade lhe arrebatara o seu único filho, o meu compa encontrava-se na clandestinidade, lutando contra a ditadura, e nem sequer pôde assistir ao ritual de se lançarem flores ao mar. Chorou o que havia a chorar muito mais tarde, no fundo marinho, no pequeno universo circular do escafandro de mergulhador.
Vemo-nos de dois em dois anos, mas que importam a distância e o tempo se tenho a certeza de que num certo lugar da costa chilena me espera uma casa rodeada de gerânios e, no meio de tanto lixo universal, a dignidade daqueles que de verdade ganham o pão que comem.




Luís Sepúlveda, in As rosas de Atacama

publicado por lique às 16:47
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22 comentários:
De Anónimo a 20 de Maio de 2004 às 16:35
Adesse: Sendo uma conhecedora da obra e do homem, poderás avaliar o quanto aprecio ambos. Há pessoas que enriquecem este mundo. Beijolique
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(mailto:lique2@sapo.pt)
De Anónimo a 20 de Maio de 2004 às 16:29
Boa tarde, Lique. Descobri este escritor com "O velho que lia romances de amor" e, a partir daí, a restante obra. Guardo na memória a sessão de Luís Sepúlveda no Museu da República e da Resistência. Inútil será dizer o quanto gostei de reler este excerto... ;-)**adesse
(http://sulanorte.blogs.sapo.pt)
(mailto:skuld_m@hotmail.com)
De Anónimo a 20 de Maio de 2004 às 16:06
Susana: Ou desconhecemos ou, pelo menos, são raros e difíceis de encontrar. Um beijinho!lique
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(mailto:lique2@sapo.pt)
De Anónimo a 20 de Maio de 2004 às 15:49
...valores que desconhecemos hoje em dia. obg pela escolha Lique e beijinhos*susana
(http://vozes.blogs.sapo.pt)
(mailto:susana229@sapo.pt)
De Anónimo a 20 de Maio de 2004 às 12:44
MJM: Que bom achares que esta é uma das casas com gerânios! Eu já encontrei, por este mundo sem rostos, algumas com diferentes flores. Na tua, eu acho que plantaste daquelas flores raras cujo perfume se tem que aspirar suavemente cerrando os olhos e abrindo o pensamento. Beijolique
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(mailto:lique2@sapo.pt)
De Anónimo a 20 de Maio de 2004 às 12:39
Porquinho: o que eu aprecio mais nos seus livros é a humanidade tão à vista, tão sem capas nem refúgios. Se puderes, lê. Bjslique
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(mailto:lique2@sapo.pt)
De Anónimo a 20 de Maio de 2004 às 12:37
Sara: A amizade, a solidariedade, todos os valores importantes da vida deviam estar sempre algures onde nós soubéssemos que esperavam por nós. Ter estas certezas é invejável. Beijinhos. Tem um bom resto de dia!lique
(http://mulher50a60.blogs.sapo.pt)
(mailto:lique2@sapo.pt)
De Anónimo a 20 de Maio de 2004 às 11:36
"que importam a distância e o tempo se tenho a certeza de que num certo lugar (o da lique) me espera uma casa rodeada de gerânios"? Do Sepúlveda não li esse, mas apreciei imenso a selecção q dele fizeste. Pelo trecho, apetece correr p ir ler mais. Um beijoMJM
(http://babylonia.blogs.sapo.pt/)
(mailto:cacooco@hotmail.com)
De Anónimo a 20 de Maio de 2004 às 11:23
...amigo/a ou companheiro/a : vocábulos que não necessitam de discursos pomposos ou explicações redundantes; são! não conheço o livro, já ouvi falar no autor (não li nada dele...não se pode ler tudo...)) mas o excerto é muito bonito. Bjs e inté!porquinho da india
(http://bertoblog.blogs.sapo.pt)
(mailto:baconfrancis@netcabo.pt)
De Anónimo a 20 de Maio de 2004 às 10:41

Bom dia, lique. Finalmente consegui dar um salto até cá... Pudéssemos nós ter muitos compas assim à nossa beira. Seríamos todos mais ricos com um lugar especial guardado no peito... Ia para lá neste preciso momento... Obrigada pelo excerto, muito bonito...Sara
(http://oblogdalibelua.blogs.sapo.pt)
(mailto:deSaracomAmor@sapo.pt)

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