Sexta-feira, 14 de Maio de 2004

Saudade

Hoje apetece-me falar sobre a saudade. Acordei com um refrão de uma canção antiga que dizia qualquer coisa como: “saudade, palavra triste quando se perde um grande amor…” e cantarolei aquilo o dia todo. O que é a saudade? Palavra que dizem só existir em português, porque a todas as traduções falta qualquer coisa. Um qualquer elemento de melancolia e de abandono, de prazer no sofrimento, na perda, que é tipicamente português.
O que é que distingue a saudade portuguesa dos sentimentos de nostalgia dos outros povos? Nós gostamos de sentir saudade e temos gosto em constatar, numa atitude contemplativa: “Aquilo é que foram tempos! Que saudade!”. Sorrimos, contentes connosco por termos vivido esses tempos (de amor, de amizade, de camaradagem) e tristes porque esses tempos não vão voltar. Fazemos alguma coisa para que outros tempos venham, dignos da nossa saudade futura? Na maior parte dos casos, não. Há quem goste de viver de saudade, ponto final.
No amor, a saudade é tema recorrente. Temos saudade de tudo: das primeiras carícias, dos beijos, dos abraços, da ternura, das zangas, das desilusões. Temos saudade do bom e do mau, porque enquanto existiu, havia algo na nossa vida de que teríamos saudade mais tarde. Partimos para outra? Mesmo assim, arranjamos maneira de ter saudades de alguma coisa antiga que ficou…
Como para mim a poesia é a expressão mais completa de todos os sentimentos, deixo aqui um poema de alguém que falou da saudade de uma forma arrebatadora:


Saudades




Saudades! Sim… talvez… e porque não?....
Se o nosso sonho foi tão alto e forte
Que bem pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-me de luz o coração!

Esquecer! Para quê?... Ah! Como é vão!
Que tudo isso, Amor, nos não importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como o pão!

Quantas vezes, Amor, já me esqueci,
Para mais doidamente me lembrar,
Mais doidamente me lembrar de ti!

E quem dera que fosse sempre assim:
Quando menos quisesse recordar
Mais a saudade andasse presa a mim!


Florbela Espanca, in Livro de Soror Saudade



publicado por lique às 16:10
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28 comentários:
De Anónimo a 15 de Maio de 2004 às 17:43
MJM: obrigada baby pelo bocadinho do poema. Obrigada também pelas tuas palavras. Beijinhoslique
(http://mulher50a60.blogs.sapo.pt)
(mailto:lique2@sapo.pt)
De Anónimo a 15 de Maio de 2004 às 17:35
"Saudade feres os nervos tensos dedilhas no meu peito o grito aflito de um ventre infecundo o sonho frágil lapida a minha noite em dia" (MJM). A tua reflexão tem muita propriedade e merece refractar-se do estereótipo. É tão bom vir ler-te! Bom w.end! kisses da babyMJM
(http://babylonia.blogs.sapo.pt/)
(mailto:cacooco@hotmail.com)
De Anónimo a 15 de Maio de 2004 às 17:20
maat7: digo que saudades do futuro é o que todos devemos ter. Saudades de o construir com as nossas mãos. Bjs. Bom fim de semana.lique
(http://mulher50a60.blogs.sapo.pt)
(mailto:lique2@sapo.pt)
De Anónimo a 15 de Maio de 2004 às 12:25
e que diz a minha amiga, se tiver saudades do Futuro?



abraço,com saudades do Futuro,


maat7maat7
(http://ardeoazul.blogs.sapo.pt)
(mailto:maat7t@sapo.pt)
De Anónimo a 15 de Maio de 2004 às 10:34
Ermelinda: obrigada pela tua visita e pelas tuas palavras. Irei visitar-te em breve. Volta sempre!lique
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(mailto:lique2@sapo.pt)
De Anónimo a 15 de Maio de 2004 às 09:55
Gostei do teu texto, e da poesia da Florbela (que foi muito bem escolhida). Vim aqui parar já nem sei como, mas tive uma grata surpresa... O teu blog é, simplesmente, uma pequena pérola. Aproveitei e dei uma "vista de olhos" por outros dias e adorei tudo o que li. Parabéns!
Entretanto, gostei tanto do texto do Vinicius de Morais que não resisti e... zás! copiei-o (perdoa a ousadia) e coloquei-o lá no meu modesto blog (referindo de onde o tinha retirado, obviamente - podes ir verificar!): «O Sabor das Palavras», no qual vou colocar um link aqui para o teu «Mulher dos 50 aos 60».
Vou voltar mais vezes.Ermelinda
(http://www.osabordaspalavras.blogs.sapo.pt)
(mailto:index-poesis@sapo.pt)
De Anónimo a 15 de Maio de 2004 às 09:05
Maria: Sempre suspirando por outras terras ou outras pessoas ou outra vida... Talvez, Maria, talvez esteja na nossa memória genética. Quem sabe? Tem um bom fim de semana, amiga!lique
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(mailto:lique2@sapo.pt)
De Anónimo a 15 de Maio de 2004 às 09:03
José: é isso mesmo. Por sermos assim... Cada povo tem algumas características gerais próprias, e nas nossas está de certeza este gosto de sofrer suavemente. Bjs. Bom fim de semanalique
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(mailto:lique2@sapo.pt)
De Anónimo a 15 de Maio de 2004 às 09:00
Sara: também conheço o Parque dos Poetas. Já lá fui várias vezes e passo lá ao pé quase todos os dias. Obrigada pela tua visão da saudade. Eu também acho que não é só portuguesa mas nós temos um jeito especial de sofrer docemente... Beijinhos. Bom fim de semana!lique
</a>
(mailto:lique2@sapo.pt)
De Anónimo a 14 de Maio de 2004 às 23:51
Vamos lá saber de onde nos vem esta nostalgia, este sentimento de vida permanentemente inacabada, como um livro que nunca se fecha!... Virá do mar? De um qualquer outro continente? Não sei...Mas que vem do mais fundo de nós, bem lá do nosso princípio, vem!...Beijinho grande, lique e um esplêndido fim de semana...:))maria
(http://cassiopeia.blogs.sapo.pt)
(mailto:maria475@sapo.pt)

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