Sexta-feira, 23 de Abril de 2004

Vozes de Abril - a lucidez

abrilcriancas.bmp



"Coimbra, 25 de Abril de 1975 - Eleições sérias, finalmente. E foi nestes cinquenta anos de exílio na pátria a maior consolacão cívica que tive. Era comovedor ver a convicção, a compostura, o aprumo, a dignidade assumida pela multidão de eleitores a caminhar para as urnas, cada qual compenetrado de ser portador de uma riqueza preciosa e vulnerável: o seu voto, a sua opinião, a sua determinação. Parecia um povo transfigurado, ao mesmo tempo consciente da transcendência do acto que ia praticar e ciente da ambiguidade circunstancial que o permitia. O que faz o aceno da liberdade, e como é angustioso o risco de a perder! Assim os nossos corifeus saibam tirar do facto as devidas conclusões. Mas duvido. Nunca aqui os dirigentes respeitaram a vontade popular, mesmo quando aparentam promovê-la. No fundo, não querem governar uma sociedade de homens livres, mas uma sociedade de cúmplices que não desminta a degradação deles. "



Miguel Torga, in "Diário XII"





"Coimbra, 25 de Abril de 1991 - A eloquência doméstica no seu esplendor anual, a sujar de retórica uma data que muitos e em muitos e largos anos de sofrimento sonharam limpa. Mas a realidade é sempre cruel. E o natural é que os nossos representantes oficiais nos representem. Que amesquinhem a nossa pequenez a engrandecê-la com frases ocas, como nós a apoucamos elegendo-os, e nos exaltem a liberdade que devemos à generosidade de heróis que tivémos de combater logo no dia seguinte ao da generosidade. "


Miguel Torga, in "Diário XVI"





A ilustração reproduz um trabalho realizado em 1996 pelas crianças do 1º e 2º ano da Escola Primária de Levegadas, Lousã.
publicado por lique às 17:30
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9 comentários:
De Anónimo a 24 de Abril de 2004 às 09:31
José: sabes, eu quis dar uma visão um pouco diferente da exaltação de Abril que passa em tantos poemas e textos. Tive que escolher entre várias entradas nos Diários a 25 de Abril para apanhar o contraponto dos sentimentos que nele. tal como em nós, se sucederam. Quanto ao teu desafio, claro que vou começar a reler e hei-de lá chegar. Desafio aceite, pois claro! Bjslique
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De Anónimo a 24 de Abril de 2004 às 00:27
Olá lique

Acabaste de fazer uma coisa extraordinária: retirar da tua biblioteca esse texto do fabuloso Miguel. É tão pouco citado. Marcaste pontos: parabéns!
A relação entre os textos e a foto está equilibrada.
Agora deixo-te um desafio:quando chegares ao fim desta tua série de posts sobre o 25 de Abril, não acredito que não vás à estante e não reproduzas um ou outro texto dos volumes da «CRIAÇÃO» do Torga.
Acreditas que cheguei a levantar-me de noite para ler um dos volumes? - estava de tal modo agarrado ao texto que a minha mulher chegou a temer que estivesse com problemas. Imagina!
Fica bem.
Beijinhos!Jose Duarte
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De Anónimo a 23 de Abril de 2004 às 22:09
De facto é conversa para anos... Kant tentou explicar, mas acho que não foi muito explícito. heheheheheheanalfabeto
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De Anónimo a 23 de Abril de 2004 às 21:40
Dalia: oh mulher então tu deixaste o Nelo lá sózinho! Olha que os gajos vão lá e vais ver os apalpões... Tens que te pôr a par destas coisas da política para lhe mostrares as resmas de gajos atrás de ti... Então que história é esta? Só ele é que tem direito, não? Beijinhoslique
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De Anónimo a 23 de Abril de 2004 às 21:36
Dora: Isto de facto tem sido um reviver de muita coisa. Neste post a voz de um grande escritor mostra a faceta de esperança não muito convencida (nas eleições de 1975) e o desencanto total com a forma como Abril é celebrado e cumprido (em 1991). Também estes textos têm a ver com a forma como vivemos estes anos, tal como as canções do Zeca e do Sérgio, os poemas de tantos outros... Mil facetas de Abril. :))***lique
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De Anónimo a 23 de Abril de 2004 às 21:28
Analfabeto: no Dicionário Universal da Língua Portuguesa liberdade é :"garantia que qualquer cidadão possui de não ser impedido de exercer e usufruir dos seus direitos, excepto em casos previstos por lei." Desculpa lá a brincadeira, mas os significados da liberdade são muitos precisamente porque os tais direitos a exercer ou usufruir também tocam todos os aspectos da vida de cada um de nós. E o que cada um preza mais (no teu caso a liberdade de expressão) por vezes não é suficiente para outros. Isto ia ser uma conversa que nunca mais acabava... Bjs
lique
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De Anónimo a 23 de Abril de 2004 às 20:08
a política não é bem o meu forte. o meu nelo é que é mais sabido nestas coisas. ele disse-me que "a polintica é p'ós polinticos e p'ós sávios". e ele é tão inteligente.... beijinhos da daliaDalia
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De Anónimo a 23 de Abril de 2004 às 19:00
Lique, Já te disse que quando leio os teus posts sobre Abril me lembro muitas vezes da canção do Zé Mário Branco cujo referão é "Eu vim de longe, de muito longe, o que eu andei para aqui chegar". Esse tema musical é para mim uma espécie de "peregrinção onírica" aos tempos da revolução, já que quando esta despontou eu tinha 9 anos e muito do que senti me foi transmitido pelo entusiasmo, e depois a revolta, de alguns familiares muito próximos. Aqui, no teu cantinho, volto a evocar um sonho, tecido em memórias de "inocência". Obrigada :-)Dora
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De Anónimo a 23 de Abril de 2004 às 18:18
Os teus post, obrigaram-me a ir rever os calhamaços de ciência politica... lá liberdade significa: fazer-se tudo sem prejudicar a oposição !! Liberdade será isto? Ou será poder falar sem ter que olhar para o lado á procura de um PIDE?analfabeto
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