Quinta-feira, 22 de Abril de 2004

25 de Abril - o dia seguinte (II)

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Saí do autocarro e entrei no Técnico. Não havia ninguém a quem entregar o cartão e notei um grande grupo que se agitava lá ao fundo, ao pé do edifício principal. A confusão era grande e a única coisa que consegui perceber foi que o director tinha sido expulso e perseguido até à saída. Os cartões, os famigerados e odiados cartões, estavam a ser destruídos e preparava-se uma reunião de alunos, ali mesmo, com os que estavam. Havia um clima de euforia no ar e as vozes dos que queriam falar começaram a ouvir-se. Tudo o que disseram eu já tinha ouvido. Concluiu-se que era necessário marcar uma reunião com todos os que quisessem assistir. Os estudantes tinham que tomar a universidade nas suas mãos e mudar tudo, pois claro… Como éramos jovens e ingénuos!
Entre os muitos “vivas” e “abaixos”, comecei a reparar que, mesmo ali, havia ainda no rosto de alguns o espanto e o medo de falar. E também o clima de suspeição: “aquele é PIDE!” pairava no ar. Ia ser difícil andar para a frente, sem dúvida … Mas, naquele dia, nós podíamos tudo. Éramos invencíveis.
De repente alguém gritou “eles vêm aí, lá em baixo!”, e todos descemos para ver o que se passava. “Eles” eram quatro militares num jeep enfeitado com cravos. Quando pararam ao pé de nós, um estudante saiu do grupo e, com algum tremor na voz, perguntou: “Vocês não estão aqui para nos bater, pois não?”. O sorriso do outro lado deu a resposta. Um pouco nervoso e com um discurso claramente repetido disse: “Não vamos bater em ninguém. Vão para casa, não arranjem confusões aqui.” E seguiram, imagem idealizada de flores a sair das espingardas. Naquele dia, também eles eram invencíveis.
publicado por lique às 20:39
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18 comentários:
De Anónimo a 23 de Abril de 2004 às 16:30
Parêntesis: sabes que, naquela madrugada, até aqui em Portugal houve quem temesse que o golpe viesse dos extremistas de direita? Falava-se muito nisso e ver tropas na rua, para quem não tinha informação previlegiada sobre o que se passava, não era um bom prenúncio... Felizmente os militares ali assumiram o papel de libertadores. Bjslique
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De Anónimo a 23 de Abril de 2004 às 15:11
Foi um dia bonito e inesquecível mas eu não o pude comemorar com a mesma intensidade e no próprio local, pois na altura vivía a milhares de km de distância de Portugal e, onde morava, a notícia por rádio deixou muita gente inicialmente apreensiva, com receio de se tratar de alguma manobra traiçoeira, mas pouco a pouco as pessoas aperceberam-se que era mesmo a sério e nessa altura foi uma festa :)beijinhoParêntesis
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De Anónimo a 23 de Abril de 2004 às 14:53
Porquinho: não é todos os dias não! Tudo o que vivemos naquela altura, naqueles dias e nos que se seguiram , deveria ser um capital de emoções mas também de experiência para conseguirmos não desistir facilmente quando tudo parece ir mal! Bjslique
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De Anónimo a 23 de Abril de 2004 às 12:58
...foi sem dúvida um dia espectacular. Vivi-o por inteiro na baixa e no carmo, lisboetas; não é todos os dias que se testemunham quedas de regimens como o do estado novo. Inté!porquinho da india
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De Anónimo a 23 de Abril de 2004 às 11:17
Encandescente: há por aí algum desencanto, não é verdade amiga? Nós sentíamo-nos invencíveis naquela época, agora sabemos que não somos mas também sabemos com o que lidamos e as "armas " de que dispomos. Poderá não ser muito mas eu vejo que tu usas a tua poesia e a diriges contra o que consideras injusto. É a tua arma, mulher e não julgues que é pouco! :))***lique
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De Anónimo a 23 de Abril de 2004 às 11:05
Grilinha: pois eu também apanhei com algumas passagens administrativas nas cadeiras que me faltavam! E assisti a muitos saneamentos, alguns com razão outros nem por isso. Partia-se do princípio de que quem estava em cargos de chefia era conivente com o regime. Análise primária claro, mas resultante dos tais excessos que eu referi na resposta à Lótus. E já agora ainda a respeito das passagens administrativas, sempre fui contra porque acho que o caminho para a massificação ou democratização do ensino(como preferirem) não deve nunca passar pela falta de qualidade. E viva a liberdade que nos permite fazer estas análises todas, aqui ou noutro sítio qualquer! :))***lique
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De Anónimo a 23 de Abril de 2004 às 10:56
Maria: para quem os viveu não vai ser possível esquecer, nunca. Faz parte daqueles acontecimentos que marcam uma vida e que, depois , ou nos desiludem de todo ou nos fazem reagir e dizer: isto não pode ter sido em vão! Eu vou mais por esta segunda hipótese e aposto que tu também! Beijinhoslique
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De Anónimo a 23 de Abril de 2004 às 10:50
José: é emocionante a euforia, a sensação do coração não caber no peito, a ansiedade, as lágrimas. Foram meses em que vivemos tudo "no fio da navalha" , entre alegrias e desilusões. Valeu a pena por muitas razões, mas valerá ainda mais a pena se não nos demitirmos de exercer os direitos que Abril nos deu. Bjslique
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De Anónimo a 23 de Abril de 2004 às 10:45
Lótus: foi de facto uma forma bonita de fazer a revolução. No entanto temos que perceber que, antes do 25 de Abril quem se opunha ao regime vigente era "da oposição", termo que abrangia um vasto leque de tendências políticas. Após o 25 de Abril essas diversas tendências começaram a aparecer e a divergir, resultando em tudo aquilo que sabemos que aconteceu. A explosão e alguns exageros que se seguiram àquele dia resultaram das esperanças de "mudar tudo e depressa" de quem tinha estado silenciado tanto tempo. Muita gente já se debruçou sobre tudo isto e tentou explicar, mas as explicações racionais não substituem a emoção...:))* lique
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De Anónimo a 23 de Abril de 2004 às 10:25
Analfabeto: o 25 de Abril apanhou-me numa altura de viragem da minha vida. Estava a acabar o curso, já trabalhava, queria constituir família... A minha intervenção político-social realizava-se bastante mais no meu trabalho. Já nessa altura eu achava que era perto de nós que as coisas começam a mudar. Segui e participei nos movimentos estudantis e admiro muito quem a isso se dedicou de corpo e alma ( só em Janeiro de 74 tinham sido expulsos 30 estudantes do Técnico) mas tinha alguma distância crítica relativamente a certos discursos. Sempre gostei de pensar pela minha cabeça, o que levou a que , não podendo rotular-me de direita, houve nessa época quem me rotulasse de extrema-esquerda... Mas isto são outros carnavais. Bjslique
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