Terça-feira, 20 de Abril de 2004

25 de Abril - o dia seguinte (I)

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Saí cedo. A excitação era muita e tinha que ir ao Técnico, ver como estavam as coisas. Afinal a vida não parava. Estava no último ano, já atrasada por um ano de “curso geral de cinema” e pelo tempo que o Instituto tinha estado fechado após as entradas “meiguinhas” da polícia. Além disso queria encontrar a malta. Que estariam a fazer, que mudanças iria encontrar?
No comboio, olhei as pessoas porque esperava que estivessem diferentes. Havia um clima estranho, de tensão, como se toda a gente quisesse falar mas não soubesse exactamente o que podia ou não fazer. O medo, pensei, o medo vai levar tempo a desaparecer. E senti a segunda sensação de desapontamento, após o dia anterior. A primeira tinha sido ao ver na televisão aquela Junta de Salvação Nacional. Tinha tido um aperto no peito, um pressentimento esquisito que mandara para longe. Não era dia para isso! Tirei o passe e olhei o meu cartão do Técnico. Aquele rectângulo plastificado era a solução que tinham encontrado. Deixávamos o cartão à entrada e íamos buscá-lo à saída. Como se estivéssemos numa prisão de alta segurança…
O comboio aproximava-se do Cais do Sodré e comecei a ouvir um barulho, pareciam gritos vindos da plataforma de chegada. Quando ia a sair, as lágrimas saltaram-me dos olhos sem que eu pudesse fazer nada. Os miúdos, os putos da rua do Cais do Sodré gritavam em coro para as pessoas que saíam do comboio: “O povo unido jamais será vencido!”. O meu coração disparou e comecei a perceber que a diferença tinha começado naqueles que nada temiam. A voz do Chile martirizado estava na boca dos meninos de Lisboa.
publicado por lique às 17:44
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33 comentários:
De Anónimo a 21 de Abril de 2004 às 20:13
Lique os teus posts inspiraram-me uma "carta" está no blog Fachadas Perversas (desculpa a publicidade, mas não é publicidade) gostaria que lesses até porque foi aqui no teu blog que bebi a inspiração para a escrever um beijoencandescente
(http://eroticidades.blogs.sapo.pt/)
(mailto:encandescente@sapo.pt)
De Anónimo a 21 de Abril de 2004 às 19:04
Ema: Olá, boa tarde! Foi bonito, aquele e muitos outros dias , mas precisava que alguém mandasse "novamente algum cheirinho de alecrim". Para ver se animava esta gente que só se queixa! Beijinhoslique
(http://mulher50a60.blogs.sapo.pt)
(mailto:lique2@sapo.pt)
De Anónimo a 21 de Abril de 2004 às 18:34
Olá Lique,
Foi bonito o teu dia pá... que o recordes bem e repetidamente. Cá fico à espera do teu "dia seguinte II " . Beijosema.pi
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(mailto:ema.pi@sapo.pt)
De Anónimo a 21 de Abril de 2004 às 15:30
Analfabeto: criancinha mas com muita piada. Mantem-te assim homem que o sentido de humor deve ser a última coisa a perder-se ! Bjslique
(http://mulher50a60.blogs.sapo.pt)
(mailto:lique2@sapo.pt)
De Anónimo a 21 de Abril de 2004 às 15:29
MJM: pelo teu blog não consegui perceber se eras menino ou menina, mas pelo comentário vejo que és mulher e que escreves também num registo bem diferente do do teu blog que por sinal é bem divertido. E o teu comentário merecia ser outro post aqui. Está lindo, obrigada! :))*lique
(http://mulher50a60.blogs.sapo.pt)
(mailto:lique2@sapo.pt)
De Anónimo a 21 de Abril de 2004 às 15:18
Porquinho: desculpa lá, saltei o teu comentário sem nenhuma intenção. Ou se calhar vinha embalada lá da tua tourada! Poi o senhor é assim um jovem de espírito como eu, o ognid e mais uns quantos que por cá andam. Vivemos aquilo tudo, alegrámo-nos, sofremos e depois começámos a "evoluir". Mas sabe bem lembrar, de vez em quando! :))*lique
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De Anónimo a 21 de Abril de 2004 às 15:03
è um facto eu ainda sou um puto regila... hahahahaanalfabeto
(http://analfabetosexual.blogs.sapo.pt)
(mailto:pp@sapo.pt)
De Anónimo a 21 de Abril de 2004 às 14:40
Ainda muito jovem p me poder considerar elemento participativo, mas suficientemente crente p me aperceber q era por aquilo q eu sentia os silêncios lá em casa, e as pausas q ficavam no ar, sempre q se falava do meu avô paterno. Muito jovem, mas suficientemente apta para absorver a espiral de vento novo, q a minha marginal de barcos pobres acolhia - onde vivi muitos anos e aonde ainda volto por impulso - transformando o largo dos barcos em cardumes de gente q aclamava de peito cheio, a libertação dos silenciados de ideia, cativos mas a olhar o Tejo a renovar-se. Nesse largo, foi há pouco tempo colocada uma escultura simbolizando uma onda; uma onda de liberdade. Eu, eu continuo a tentar equilibrar-me nessa crista.MJM
(http://nelydalia.blogs.sapo.pt)
(mailto:cacooco@hotmail.com)
De Anónimo a 21 de Abril de 2004 às 12:50
Encandescente: os dias e anos que se seguiram em que medida terão cumprido o 25 de Abril? É uma boa reflexão a fazer decerto, tal como analisar o porquê da apatia geral deste povo. As memórias podem ser só um refrescar dos ideais... Beijinhoslique
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De Anónimo a 21 de Abril de 2004 às 12:12
Pena que todos os dias e anos que se seguiram, não sejam ainda o "dia seguinte". Pena que a chama se apague. Pena que as pessoas esqueçam e que não se indignem quando ainda hoje, se bem que de outro modo são oprimidas e caladas.Um beijo e um obrigada pela memória lique.:))*encandescente
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(mailto:encandescente@sapo.pt)

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