Sexta-feira, 9 de Abril de 2004

Uma voz de Angola - um cheirinho de Pepetela

linhas.jpg



“Mas diga uma coisa, camarada escritor ou jornalista ou o quê...Jornalista não é de certeza, você garantiu. Se fosse, não lhe falava, não posso com jornalistas, já vai saber porquê... Ganha quanto por mês? Depende dos livros que vende, afinal? Isso dá para viver? As pessoas compram muito? Devem comprar, agora compra-se tudo antes e só depois é que se vê o que está a sair na bicha. Disco dá, tenho um amigo cantor tem kumbu bué. Nos tempos que se fazia disco aqui. Mas livro como é? À rasca então? E não tem esquema prá carne, pró peixe, etc.? Não? Como pode então? Não sei mesmo como vive, mas o problema é seu. Mesmo com dinheiro a vida é uma puíta...
Eu cá não é de dinheiro que me governo, não. Sabe como é aí nas fábricas. Grande conquista da Revolução! O que nós produzimos, a nossa gloriosa classe operária que tenho orgulho de pertencer, o que produzimos é que nos safa. No tempo do colono não era assim, távamos mesmo lixados, era a exploração capitalista. Agora não é nada o salário, esse é melhor esquecer. Mas as latitas que cada um tem direito por dia e mais aquelas que cada um faz sair mesmo sem ter direito, essas é que dão. Vou com uma lata ao talho e troco por meio quilo de carne. Vou com uma lata à padaria e troco com o pão que quiser. Assim...Pró dinheiro, entrego umas latitas à mulher que as vai vender no bairro. No mercado agora está difíciil, tem fiscais. Eles têm medo, fingem não vêem, mas com esses deles nunca se sabe. Um dia podem armar em vivos e dá maka."


Pepetela, O cão e os caluandas









“Então não havia o Afeganistão, a Somália, o Irão ou a Colômbia, países ideais para um americano morrer de morte matada, sem levantar muitas comoções nem pasmos, pois eram territórios já habituados a serem tratados de promotores e antros de horripilantes antiamericanismos? Aí tanto fazia, mais um menos um, não provocava qualquer crise mundial.
Porque iria logo escolher a pacífica Benguela, onde, de memória de gente, nunca nenhum americano tinha morrido, nem mesmo quando os ianques andaram a apoiar, abertamente ou de caxexe, os famigerados "terroristas", linguagem oficial de um dos lados, "lídimos e heróicos defensores da democracia" no dizer do outro lado?”

Pepetela, Jaime Bunda e a morte do americano





Pepetela (Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos), nasceu em Benguela, em 1941. Licenciado em Sociologia, escritor, guerrilheiro, político, é hoje professor na Universidade Agostinho Neto, em Angola.

publicado por lique às 22:37
link do post | quer comentar? | favorito
|

sobre mim

pesquisar

 

outras palavras minhas

palavras recentes

Passeando na blogoesfera....

O Beijo

Reinvenção do mundo

de impossibilidades

Fixação

Ritual do silêncio

Poema à mãe

Azul, azul...

Ecos de Abril...

Desencanto

palavras guardadas

Dezembro 2007

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Agosto 2004

Julho 2004

Junho 2004

Maio 2004

Abril 2004

Março 2004

blogs SAPO

subscrever feeds