Sábado, 20 de Março de 2004

Caranguejola

sacarneiro.jpg

Ah, que me metam entre cobertores,
E não me façam mais nada!...
Que a porta do meu quarto fique para sempre fechada,
Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores!

Lã vermelha, leito fofo. Tudo bem calafetado...
Nenhum livro, nenhum livro à cabeceira...
Façam apenas com que eu tenha sempre a meu lado
Bolos de ovos e uma garrafa de Madeira.

Não, não estou para mais; não quero mesmo brinquedos.
P'ra quê? Até se mos dessem não saberia brincar...
Que querem fazer de mim com estes enleios e medos?
Não fui feito p'ra festas. Larguem-me! Deixem-me sossegar!...

Noite sempre p'lo meu quarto. As cortinas corridas,
E eu aninhado a dormir, bem quentinho - que amor!...
Sim: ficar sempre na cama, nunca mexer, criar bolor -
P'lo menos era o sossego completo... História! Era a melhor das vidas...

Se me doem os pés e não sei andar direito,
P'ra que hei-de teimar em ir para as salas, de Lord?
Vamos, que a minha vida por uma vez se acorde.
Com o meu corpo, e se resigne a não ter jeito...

De que me vale sair, se me constipo logo?
E quem posso eu esperar, com a minha delicadeza?
Deixa-te de ilusões, Mário! Bom édredon, bom fogo -
E não penses no resto. É já bastante, com franqueza...

Desistamos. A nenhuma parte a minha ânsia me levará
P'ra que hei-de então andar aos tombos, numa inútil correria?
Tenham dó de mim. C'o a breca! levem-me p'rá enfermaria -
Isto é: p'ra um quarto particular que o meu pai pagará.

Justo. Um quarto de hospital - higiénico, todo branco, moderno e tranquilo;
Em Paris, é preferível, por causa da legenda...
De aqui a vinte anos a minha literatura talvez se entenda;
E depois estar maluquinho em Paris, fica bem, tem certo estilo...

Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras,
Se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou.
Agora no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras.
Nada a fazer, minha rica. O menino dorme. Tudo o mais acabou

Mário
de Sá Carneiro
(Paris, Novembro de 1915, 5 meses antes da sua morte)


Para a Mis que disse que 
todos falam de Pessoa e se esquecem do seu grande amigo


publicado por lique às 09:22
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10 comentários:
De Anónimo a 13 de Agosto de 2004 às 09:48
Olá. Por acaso, ou nem tanto, vim ao início do seu blog. Se eu soubesse «andar» por aqui era um assim que queria! Mário Sá Carneiro: a beleza na desistência. O sofrimento da bi-polaridade. Sofrimento que só se (re)conhece quando se vive por perto. Emocionou-me num começo de manhã que não é lá muito luminosa (e não é por falta de sol). Vou continuar a usufruir da companhia das palavras e imagens.Mariana
</a>
(mailto:mariater20022001@yahoo.com.br)
De Anónimo a 21 de Março de 2004 às 10:23
Luis Silva: Bom dia! Claro que lá estarei na 2ª feira. Aproveito para dizer que gostei muito das fotos do teu blog. Obrigada pelo teu comentário ao meu blog. Tem um bom domingo!lique
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(mailto:lique2@sapo.pt)
De Anónimo a 21 de Março de 2004 às 10:20
Olá Mis: estou a responder-te ainda um bocado ensonada, mas que se há-de fazer, isto é um vício... Linda, se me fazes mais vénias, ainda acabas com alguma hérnia discal ou coisa assim... Olha, obrigada pelos teus dois comentários. Sabes que este senhor da poesia toca-me profundamente, precisamente na sua fragilidade. Eu não consigo ler a obra dele sem ter sempre presente a sua vida. E de facto há aqui algumas analogias com Pessoa, sim! A surpresa foi preparada com gosto, porque tu tens merecido, neste pouco tempo que ando aqui pela blogoesfera. Goza a primavera! :))*** lique
(http://mulher50a60.blogs.sapo.pt)
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De Anónimo a 21 de Março de 2004 às 01:41
Boa noite. Antes de mais obrigado pela visita que fez ao meu blog e pelo comentário deixado no post sobre o filme "The Passion".
Quero aproveitar para dizer que o autor do referido post irá argumentar e responder à sua pergunta na próxima 2.ª feira, pois durante o fim-de-semana ausenta-se.
Aproveito a oportunidade para lhe endereçar sinceros parabéns pela qualidade do seu blog e devido a isso acrescentei-o nos meus links.
Luis Silva
(http://luissilva.blogs.sapo.pt)
(mailto:luisantoniosilva@iol.pt)
De Anónimo a 21 de Março de 2004 às 01:32
Tinha que voltar Lique...sabes que isto que aqui puseste, tem muito que se lhe diga. é bom que se leiam certas obras do Pessoa, pois nós também somos um pouco quem amamos... e de tanta vez ter lido isto, talvez tenha alucinado, mas há aqui alma do Caeiro, sentimento histérico do Campos e ironia... pessoana, sim! Mesmo enquanto longe se escreviam, trocavam vivências do mais comezinho como a vida do Mário em Paris e a sua eterna falta de dinheiro, o pai, e a amante que lhe sugou tudo. O "menino", esse ser ridiculamente "disfrome" por gordo, tinha uma alma fanzina... muitas vezes, a um nível mais profundo,s e os lermos paralelamente, acabamos por os confundir. Este foi um dos momentos mais belos da história que conheço dos blogs! OBRIGADA, Mulher! :***************misogena
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De Anónimo a 21 de Março de 2004 às 01:21
LIQUE! LINDOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO! O Mário na pujança do seu fim! Era a tua surpresa para mim? Amiga...nem sei o que te diga! este poema é dos mais sentidos e dos mais sinceros deste "fingidor". Aqui, já não havia lugar a fantasias de glória com que sempre viveu. Sem sonhos dourados, o homem que gastou os seus últimos tostões com uma prostituta e se arrepenedeu de tantas vezes ter pedido dinheiro ao pai! Lique, a tua escolha toca-me profundamente, pois soubeste destrinçar o momento em que o autor se funde com o narrador e ambos com a vida e obra! Não é para tirar o chapéu, é para agradecer de novo... Mulher...imaginas a dor que tenho nas costas de tanto te fazer vénias? Ai!Ui!:))) Bela escolha, Lique! Parabéns e obrigada, hein? beijinhos!:))***misogena
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(mailto:misogena@sapo.pt)
De Anónimo a 21 de Março de 2004 às 01:18
Olá Xzip! Parece-me que, para Mário de Sá Carneiro, poucos eram os dias em que não estava cansado sobretudo dele próprio... Cinco meses depois de ter escrito isto, suicidou-se em Paris claro, "é preferível, por causa da legenda". Há pessoas cuja sensibilidade exarcebada não as deixa ver o lado positivo da vida. Mas é um poeta extraordinário, fazendo humor muito subtil com as suas fragilidades. Às vezes doi ler os seus poemas! Boa noite. lique
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De Anónimo a 21 de Março de 2004 às 01:10
maria: Mais uma vez bem vinda. Eu gosto particularmente deste poeta, reconhecendo no entanto que não é exactamente um poeta fácil, pelo seu lado tão depressivo mas ao mesmo tempo tão lúcido. Há tanta ironia e desespero em tudo o que escreve... Boa noitelique
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De Anónimo a 21 de Março de 2004 às 00:37
Não conhecia. O poema, além de bem construido, é de uma rara beleza. Uma excelente escolha. Fez-me reflectir nos momentos de solidão que todos precisamos de vez em quando. Essas alturas em que até o ar que respirámos nos parece insuportável, demasiado pesado para o nosso coração cansado do mundo, ou de nós mesmos. Quem sabe...? Felicidade(s)Xzip
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De Anónimo a 20 de Março de 2004 às 22:30
Olá.Boa Noite.
A parte final do poema é linda.
mariaras
</a>
(mailto:mariaras@sapo.pt)

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