Domingo, 7 de Maio de 2006

Poema à mãe

whiterose.jpg

 

No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe!

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos!

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais!

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura!

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos...

Mas tu esqueceste muita coisa!
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha - queres ouvir-me? -,
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
"Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal..."

Mas - tu sabes! - a noite é enorme
e todo o meu corpo cresceu...

Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas...

Boa noite. Eu vou com as aves!


Eugénio de Andrade,  in Antologia Breve

(post reeditado)

hoje estou: vulnerável
publicado por lique às 11:53
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6 comentários:
De Aldina Duarte a 10 de Maio de 2006 às 02:18
Eugénio de Andrade é dos meus poetas de eleição, é duma beleza comovente a sua selecção!

Aproveito para dar a conhecer o meu novíssimo Site/Blog, sendo que o seu comentário positivo ao meu trabalho faz parte da pesquisa feita na net!

Até sempre!
De Mel a 10 de Maio de 2006 às 15:33
Que poema lindo... Gosto de passar por aqui de vez em quando, vejo coisas lindas. Vou colocá-la na minha lista de favoritos, tudo bem?
Uma boa semana para você.
De Menina_marota a 24 de Maio de 2006 às 09:04
Andava por aqui perdida, porque o sono não me deixou descansar e, aproveitava para fazer pesquisa, enquanto em casa ainda dormem e, descobri este teu Blog. Embrenhei-me nas tuas palavras e saio mais serena...e, talvez menos triste, não sei dizer-te porquê, mas existem momentos que acalmam o nosso espírito e o nosso coração. Deixo-te um sincero e carinhoso abraço, que a Vida te sorria e ilumine. Bj ;)
De adelaide amorim a 24 de Maio de 2006 às 21:47
Belo poema, bem do jeito de Eugénio. Gostei do blog, viu? Abraço.
De Ilhota2 a 23 de Junho de 2006 às 17:18
Não conhecia este poema mas ADOREI.Obrigada
De viagra pharmacy a 11 de Agosto de 2011 às 18:38
Bom post!

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