maio 04, 2004
A D. Fátima (ou o meu dia de ser mázinha)
A D. Fátima trabalha há muitos anos no mesmo organismo que eu. É daquelas pessoas que passam por nós sem repararmos nelas. Talvez para compensar isso, fala pelos cotovelos e repete indefinidamente coisas que não interessam a ninguém (quem disse que devemos ser solidários?).
Durante estes anos todos, na minha completa indiferença, a D. Fátima não me incomodou, não me despertou curiosidade. Não gostava dela nem deixava de gostar.
Ultimamente, o trabalho que faço aproximou a D. Fátima de mim. E quando ela entra no meu gabinete com o correio, já vem invariavelmente a dizer:
- A Srª Engª desculpe, hoje isto está muito atrasado, já cheguei tarde, ontem tive que ir com a minha mãe ao hospital, isto está muito mau..
Eu não a oiço, não consigo e só respondo:
- Deixe lá, não tem importância, deixe ficar aí…
Ela continua:
- Hoje não é muito, se calhar estou a atrasá-la, mas a minha mãe…isto é um problema, eu sozinha não posso tomar conta dela…
Céus, que tenho eu a ver com a mãe dela ? Que mania de trazer os problemas pessoais para o trabalho… Isto não é nenhum consultório de psiquiatria.
Os meus pensamentos cavalgam enquanto ela conta todas as desgraças da mãe, da filha, do marido… Ah não, tenho que acabar com isto!
- D. Fátima desculpe, deixe-me lá o correio porque eu vou ter uma reunião daqui a bocado.
Funciona sempre. A palavra reunião é mágica.
- Desculpe, Srª Engª, pois claro mas é que isto está muito mau…
E vai saindo, sem parar de dizer o quão mau aquilo está.
Quando entro na sala dela, a D. Fátima está sempre a ler a Maria ou qualquer outra revista do género. Nem se preocupa em disfarçar, poisa a revista de lado e pergunta:
- A Srª Engª quer alguma coisa?
Enquanto lhe dou os papéis que levo , vai dizendo:
- Já viu bem esta desavergonhada? Agora vem para a revista dizer que não anda com aquele loiro… aquele. Isto é tudo uma pouca-vergonha. Ainda por cima é casada! É como na televisão, já nem consigo ver aqueles programas, que horror!
Deve papá-los todos, telenovelas e reality-shows, quanto mais não seja para poder comentar! Ai, é preciso ter paciência!
- É verdade, é , a gente já nem sabe o que há-de ver ou ler, Srª Engª. Não acha?
O “não acha” é a minha deixa e, conforme os dias, ou digo:
- Hum,.hum…
ou, quando estou excepcionalmente bem disposta:
- Mas oh D. Fátima, não acha que ele também não é flor que se cheire?
Para não me armar em compreensiva, levo logo a resposta:
- Ai, mas ele é homem, nada lhe fica mal, agora ela…
Aí resolvo que tenho algo de muito urgente para fazer e saio porta fora.
Pergunto-me porque é que as D. Fátimas deste mundo me incomodam tanto, quando entram no meu círculo mais próximo. Será só porque sou uma burguesa snob e elitista, com manias de intelectual? Quem sabe…
Posted by lique2 at maio 4, 2004 09:12 PM
Sorriso.. pelo teu post. Ainda um dia te conto das minhas donas fátimas. Chamam-se marias e têm a sabedoria infinita do mundo. :-)
Gargalhadas lique:) Ri imenso ao ler este post. Nos tempos que correm ao menos algo para desanuviar:) PS: O que é que a D. Fátima dirá da libertação da cadeia do Carlos Cruz?
Gostava imanso de te enviar o convite para participar no Blogue de Cartas, mas não dou com o teu endereço... Podes mandar-mo para aqui?
Uma boa noite :-)
looooool... esta foi das melhores. Realmente és um bocado pró burguês e elitista mas, também, isso não te fica mal. bjks
Talvez porque todos crescemos com muitos "restos" de D. Fátima cada vez que nos aparece uma pela frente é mais um bocado que temos para limpar dentro de nós. Já é dar conta disso!
Parabéns pelo seu Blog, que não conhecia. Convido-a ir ao meu e a participar no desafio que deixo em aberto aos meus visitantes, sendo que terei de me ausentar duarante os próximos 3 dias, ainda que tenha meios e algum tempo para visitas não terei para actualizar o meu... Obrigado.
Até Breve!
Olá lique
São verdadeiras máquinas falantes, certas pessoas.
Não se ouvem, não prestam atenção ao contexto e desconhecem o que seja um critério de oportunidade.
O quadro de socialização dessas pessoas não tem em conta contextos e acham-se - sem avaliar a correcção da atitude - que serão sempre compreendidas as irreverências.
Fica bem!
Bjs
Vou adicionar o seu Blog aos meus links favoritos!
xiiii Lique, tem dó! mais vale ter uma "pretinha"
com contrato a prazo e semi-analfabeta...
eheheh ... como eu me lembrei logo de uma "D. Fátima" que tinha por perto. Eu era a Responsável pelos Rec Humanos e ela detestava a chefe que eu tinha lá colocado na secção. E quando dava em telefonar-me para casa á noite ou nos fins de semana a contar as desavenças com uma das colegas da secção ..... sshhhiiii. Tive que ir pondo cobro á situação. Acabaram os telefonemas ... acabaram os queixumes. Amuou por uns dias ... mas passou-lhe e até os outros reparavam que estava mais calada eheheeh.
Já tentou dizer à D. Fátima que a incomoda?
São mentalidades ... que não se escolhem ... são-no simplesmente pela força da vida ... um sorriso e um beijo*
Lolita: sabes também conheço pessoas com até menos instrução que esta D. Fátima em que me inspirei que têm toda a sabedoria do mundo e com quem é um prazer ter uma conversa! Relativamente ao teu pedido, jà te mandei ontem um mail, mas de qualquer forma fica aqui: lique2@sapo.pt
beijinhos
Wind: acho que diria: "Já viu isto? Agora libertam o homem? Eu também me parece que ele não é culpado, com uma mulher e umas filhinhas tão bonitas..." Isto diria a D. Fátima...:)*
ognid: eh pá, revelar os meus segredos não vale! :)))*
José Maria: a sua análise dá em parte resposta à minha interrogação final, que não é tão a brincar como pode parecer. Porque é que isto nos incomoda? Porque algo em nós se sente atacado, decerto. Um abraço. Irei visitá-lo, claro.
José: eu nem sei se é uma questão de irreverência. Nunca liguei muito a esse tipo de questões que se prendem com hierarquias. Acho que o que me incomoda é a limitação do pensamento, a incapacidade de dizer algo que valha a pena durante um dia inteiro. Bjs
Don Badalo: olha, eu a contar que aparecesse o Vermelho Vivo erguendo-se em defesa dos trabalhadores contra o "patronato" e apareces-me tu! Também lá existe feliz ou infelizmente pessoal com as características que referes (e, por acaso, a imigração é algo que está na minha lista de questões a trazer aqui). :)*
Grilinha: Acho que todos nós no trabalho ou em qualquer outra área da nossa vivência quotidiana, nos cruzamos com pessoas assim. Azucrinam-nos a paciência e por vezes acabamos por reagir mal... ou fugir, que é o que eu normalmente faço. Beijinhos
Luis Silva: Não, não tentei dizer isso às muitas D. Fátimas que comigo se cruzaram porque me parece que não iria adiantar em nada. Sá iria mesmo causar mau ambiente no trabalho. E a personagem que aqui trouxe é uma amálgama de várias: umas trabalham comigo, outras não. Um abraço.
Lótus: não tenho dúvidas sobre isso, Lótus... Só que a minha compreensão toda não chega para me tirar o sentimento de desconforto. E porquê? Beijinhos
...é que a questão central (como diria o meu amigo Fernando, coleccionador medalhado de chavões políticos) reside também na formação profissional; ler a "Maria" no local de trabalho, não havendo mais nada para fazer (o que é no mínimo caricato)não será a opção mais equilibrada. Enquadrar o trabalhador em leituras mais "culturalmente formativas" em tempo de ociosidade (?!) deveria ser da responsabilidade das Admnistrações das empresas como por exemplo: «...se a senhora não tem nada para fazer hoje, leia O Jardim dos Limites, da Lídia Jorge; e queremos que à saida nos indique em que página ficou...)))))Bjs e inté!
Pois sim...irrtam-me à brava essas senhoras.Sempre a lamuriarem-se como se mais ninguem tivesse problemas.
Não não é snob ou elitista, todos temos as Dª Fátimas da nossa vida, pessoas que o vazio da própria vida as torna assim... Calculo que a senhora seja de meia idade solteira... ou casada com um egoísta barrigudo, sócio do Benfica que só lê a Bola ou o 24 Horas... esse é o vazio...
Porquinho: pois não sei,não! É que até há que fazer, mas a Maria é prioritária. E depois não sei se para iniciação à "coltura" a Lídia Jorge seria o ideal... :))*
Rita: pois de facto há pessoas que fazem das lamentações uma profissão! Obrigada pela visita.
Analfabeto: Cá para mim vejo-a casada mas com um sócio do Sporting! :))*
Somos duas lique, também não tenho a minima paciência para as d. fátimas, será que tb sou burguesa, elitista e intelectual? hummm...
Encandescente: pois acho que, se calhar, para algumas pessoas somos isso tudo. Mas, como tudo é relativo... Beijinhos
Todos somos D.ªs Fátimas, tal como fazemos também e melhor ainda, o papel de Sr.ªs engenheiras, " snobs, burguesas"....etc. Não serão os blogs a face visivel de umas tantas D.ªs Fátimas que, não encontrando à mão uma Sr.ª engenheira, física e real, desabafam e comentam aqui as suas " MARIAS" ? O problema é de todos os tempos e cada vez mais de hoje e dá pelo nome de "SOLIDÂO". Claro que todos somos pacientes e ao mesmo tempo consultórios de psiquiatria / psicologia. Mal de nós quando assim não funcionarmos. Não é com "pastilhas " ou com a " engenharia genética" que vamos fazer face a este problema social que apanha todas as classes e agora, de maneira especial, as mais elevadas. Saber ouvir, é e será sempre a grande terapia, embora seja terrivelmente dificil. As D.ªs Fátimas não se devem procurar apenas nos gabinetes profissionais, elas estão junto de nós, dentro das nossas portas, assim existam Sr.ªs engenheiras que queiram dar por elas e se disponham a escuta-las. E depois de tudo isto, resta-me dar os parabéns ao Porto, eu que até sou da BRIOSA, por uma questão de amor fidelissimo....
MAC: Acho a tua análise correcta até um certo ponto. É verdade que a solidão é uma das razões para este tipo de comportamento. Mas é só uma das razões... Conheço muitas D. Fátimas que serão sós com muita companhia, pois têm família próxima e afastada até em demasia e têm amigas e uma normal vida social. Dir-me-ás que tudo isso não impede a solidão. Pois não, mas impediria talvez a mediocridade de espírito. O problema não é o chamar de atenção, é o estagnar total da vida, o não querer sair dali. Quanto à tua última frase, desculpa, nem li! :)*