agosto 03, 2004
Encontro inesperado
D. Fátima sabia que, no dia marcado, a engenheira iria de férias. Não se sentia propriamente satisfeita. Teria que levar todos os dias o correio ao Dr. Marques e, na verdade, ele conseguia ser mais desagradável com aquela mania de passar a vida a dizer:
- A senhora engenheira não lhe disse já que isto tem que chegar aqui tudo completo? Eu não acredito que ela admita que lhe leve o trabalho nestas condições!
Dava-lhe o raspanete a ela e aproveitava para mandar uma alfinetada à engenheira. Eles que se entendessem!
No último dia de trabalho, achou por bem dizer:
- Então boas férias Srª Engª, sempre vai para o Algarve? Eu vou em Agosto, se calhar só nos vemos em Setembro.
- Vou para o Algarve, sim. A sua colega estará cá quando eu voltar, espero! Tenha umas boas férias, também.
Era sempre assim. Nem ao menos tinha dito para onde ia. Parecia que só se preocupava com o trabalho.
Pensou que o filho também estava lá para o Algarve. Ela ainda tinha sugerido que, se ele quisesse, podia trocar as férias com uma colega e ir também. Parece que a casa era pequena, que talvez lá aparecesse um amigo deles e que não se iriam sentir à vontade se ela lá estivesse. Mas, afinal, porque não ir visitá-los no fim de semana.? Havia de arranjar um cantinho onde dormir, nem que fosse no chão. Telefonou-lhe e insistiu que chegaria no comboio na 6ª feira, à noite. Do lado de lá, houve um silêncio e , por fim, a resposta:
- Tá bem, mãe, eu vou buscá-la.
Quando chegou a casa, disse ao marido e teve a resposta:
- Ah vais, não é? Já decidiste, não foi? Eu não posso ir, combinei de ir pescar com o António. Faz boa viagem!
Quando o comboio chegou à cidade onde o filho estava, sentiu um cheiro doce no ar. Perguntou-lhe o que era.
- Sei lá, mãe, não noto cheiro nenhum.
Uma senhora que passava sorriu e disse:
- É a dama da noite, aquela planta, ali.
A “dama da noite” foi o seu primeiro encanto. Viu de relance o rio e a ponte romana e lá foi a toda a velocidade para a casa que o filho tinha alugado.
Levantou-se cedo e, com era hábito, preparou tudo para irem à praia. Ainda ouviu o filho dizer à nora:
- Se calhar devíamos ter trazido a minha mãe, sempre se comia na praia alguma coisa diferente de gelados e batatas fritas!
Gostou de ter que ir de barco e fez perguntas ao filho sobre a ilha.
- Sei lá, mãe, é a praia!
E na praia, quando olhava aquela imensidão de mar tão plano que mais parecia uma piscina, ouviu uma voz familiar. A engenheira! Tentou passar despercebida mas ela viu-a e veio na sua direcção (ainda duvidou se teria havido algum problema de última hora, no trabalho…)
- D. Fátima, por aqui?
- Ai, a Srª Engª até me assustou! Está tão queimadinha! Pois é, o meu filho está cá e convidou-me…
- Está a gostar?
- Ainda não vi a cidade mas esta praia é um encanto! Pena haver tanta gente…
- Olhe, se puder, dê uma voltinha na cidade. E se quer conhecer a ilha mais ou menos como ela era antes de vir para aqui toda esta gente, vá andando junto ao mar até bem lá ao fundo, onde já quase não há ninguém. Tem muito que andar, mas está maré vazia e garanto que vale a pena. Ah, se vir alguns nudistas, não se assuste! E se encontrar alguns pares de namorados não ligue que, no Paraíso, Adão e Eva também não se devem ter portado muito bem!
E, dando uma gargalhada, entrou no mar com uma das filhas. Nunca lhe tinha ouvido uma gargalhada assim, Tinha aquele riso de quem parecia estar sempre a troçar…
Olhou a linha em que o mar beijava a areia, até lá bem ao fundo. O neto gritava qualquer coisa, atrás dela.
- Diz ao teu pai que tudo o que ele precisa está nos sacos que trouxemos. Basta procurar. A avó vai dar uma volta. Já venho. Vai, querido, vai.
Na areia molhada, as suas pegadas, ao princípio indecisas, foram-se tornando mais firmes. À procura do paraíso.
Querem saber mais sobre a D. Fátima e a engenheira? Podem fazê-lo aqui e aqui
Posted by lique2 at agosto 3, 2004 08:34 AM
Que me desculpem quem não suporta a D.Fátima - já li aqui alguns comentários nesse sentido - mas francamente, a mim, ela só me inspira pena. Não digo que a dita personagem não tenha muita "culpa no cartório" para ser tratada assim mas que querem ? tenho mesmo pena da mulher ! :-) Beijo grande Lique
mmmm... cheira-me a ilha de tavira. estive lá estas férias e, talvez pelo facto de ainda não conhecer, me tenha encantado tão facilmente. espero que a D. Fátima venha de lá agradada :))
bem vinda de volta, Lique.
Querida Lique, Dª. Fatima, uma mulher que se vive na solidão acompanhada. Beijinhos
Obrigado por teres visitado o meu e teres deixado a msn. Xau. Prometo que volto
Certamente vai voltar de férias leve e feliz, Dona Fátima. Beijo, Lique.
Vou por seu link nos meus, tá?
Prazer enorme estar de volta ao seu espaço. Sua escrita é contagiante. Leve, envolvente mas profunda.
Obrigada pelo retorno tão simpático, viu? Será um prazer ter vc por lá.
Beijos
Há muita gente a viver completamente só, no meio da multidão. Beijo, Lique :)
pode ser que a D. Fátima descubra o paraíso no final da ilha... beijinhos
Independentemente da D. Fátima ser triste ou alegre eu gosto imenso da maneira como a (d)escreves. Bjs :)
simpatizo com D. Fátima. Cada vez mais.
Resto de dia bom, Lique.
estas Engenheiras sabem mais da "poda" que todas as Donas Fátimas deste mundo! vejam lá a "arte" com se safou da "coitada"!... Falou-lhe em nudismo e claro: é ver agora a dona Fátima a bisbilhotar a praia toda!...(querem ver que ainda mete o cabo da guarda ... )
adorei
beijos
E ficamos à espera que a D. Fátima encontre o Paraíso, finalmente. Bjinhos
risossss... Lique, estava justamente a publicar o novo post lá enquanto tu estavas a "puxar-e as orelhas" rssss.... Juro, que arrumei um tempinho, e publiquei no meu blog. Acho que nem chegaste a dobrar a esquina e já estava! Juro!!!rsss...Desculpa, amiga! Bjs. Volto à noite para ler-te com calma e imenso gosto.
Só agora pude comentar, raio do sapo, Lique! Bem, cada vez gosto mais da D. Fátima:) A sério.É tão só...Beijos:))***
Sim, o Local Imperfeito sofreu uma viragem... são estados. Há novos ainda mais para Este...obrigado pela visita. Regressarei ao Norte em breve! (espero)
Inconformada: já pensaste quantas há com vidas semelhantes? E sem capacidade de mudar... Complicado, não é? Tenho que lhe dar uma volta! Beijinhos
nyrian: cheira-te bem, a mata, a areia branca, a mar. E eu também espero que a D. Fátima tenha encontrado o seu paraíso por lá. Eu encontrei lá o meu, muitas vezes. beijinhos
Maria: já pensei em acabar com esta personagem mas curiosamente ela volta. Conheci demasiadas como ela, se calhar. beijinhos
Tiegas: volta sempre :) Um abraço.
Márcia: Espero que sim, que alguma réstea de felicidade tenha sobrado para ela naquela ilha. Obrigada, eu vou retribuir, claro. beijos
Loba: obrigada eu. Gostei muito de conhecer o teu espaço. beijos
Yardbird: é verdade, muita gente. Muitas mulheres como esta. Beijos
Sonia: é isso que eu quero para ela. Que descubra o seu espaço de felicidade. Como fazê-la lá chegar? Beijinhos
Betty: obrigada, amiga. Também eu vou apreciando a tua escrita um pouco mais em cada dia. beijinhos
adesse:ainda bem que ela te agrada. Acho que até eu já me afeiçoei a ela... beijinhos
Don Badalo: olha, a pôr más intenções na minha D. Fátima! Se visse nudistas, ela taparia os olhos com os dedos bem abertos:)) Beijos
Amita: eu tenho que lhe dar alguma felicidade, coitada! :) beijinhos
Lia: amanhã de manhã vou ver o post, juro! É que o Sapo ficou paralítico outra vez. Tu sabes... Beijinhos
Wind: tem sido uma complicação com o Sapo que ainda aqui estou a esta hora! Ainda bem que também vais simpatizando com a D. Fátima. beijinhos
JAC: eu gosto da tua nova orientação. Não foi crítica, só constatação. Um abraço
Oi Lique, e as férias como foram? Estava com saudades. Eu andei tendo uns probleminhas lá no blog mas agora está tudo ok. Gosto da D. Fátima. Beijos
Márcia:as féria foram óptimas. Pois eu não consegui entrar no teu blog durante um tempo. Ainda bem que já está tudo OK. beijos
Quando comecei a ler este post....disse para comigo: Olha..olha!!
Mais uma "história" da vida da Dª Fátima, aquela desgraçada que trabalha como uma moura, tem um filho morcão, uma nora nojenta e um marido pachorrento e malandro!!
Da ultima vez que li um post teu sobre esta senhora, achei muito interressante e comoveu-me pessoas assim tão benevolentes para com a familia e no fundo os beneficiados não lhes dão o respeito merecido!!
A saga da Dª Fatima continua e neste post uma vez mais vemos o rancor com que o filho lhe fala, a ignorância machista da parte do marido, etc...etc... Gostei muito de ler mais um episódio triste da vida desta "desgraçada"!
Armando: tenho que começar a mudar a vida da senhora! Mas ainda bem que gostaste! Bjs
Vamos lá escrever depressa para ver se o batráquio não me corta, mais uma vez, o pio. Acho que a D. Fátima está a ancontrar o seu caminho, finalmente. Devias começar a pensar em fazer o livro das estórias da D. Fátima e a Sra. Engª. Beijinhos
Ah, são a mesma pessoa...
Ah, são a mesma pessoa...
ognid: pois claro... Estou exactamente a pensar nisso.:) beijinhos
Antonio: Desculpa lá quem é que é a mesma pessoa ?? Volta sempre, mas desta vez não te percebi. Bjs
Esta relação ínvia ainda vai dar um livro, um filme... sabe-se lá!...
As personagens centrais já estão devidamente caracterizadas, com corpo e alma para dar e vender. Os ambientes vão-se definindo, tal como a trama... Aguardamos os desenvolvimentos. Beijos.
OrCa: olha, outro a querer livro, filme... Eu já só quero dar um fim feliz às personagens.:) Beijos
Queria dizer que Enginheiras, D.Fátimas, Ministérios, e Terreiro do Paço, incluindo tudo o resto, almares e por aí fora, é tudo o mesmo! Lindo blog, muito bem cuidado.
Antonio: ah, isso tudo era para dizer que eu e a Almar somos a mesma pessoa? Claro que sim, nunca o escondi. Quanto a engenheiras, D.Fátimas, Ministérios,etc. tenho algum conhecimento disso. Tudo a mesma coisa, como tudo mau, tudo não presta ou...? Obrigada pelas palavras sobre o blog.
voltas de vez em quando á tua d. Fátima, gosto. bj
Encandescente: volto e ando às voltas com ela. Tenho que lhe dar um destino. Bjs