Quarta-feira, 30 de Junho de 2004

Com uma força...

bandeira2.gif


Vamos lá, homens que estão no nosso coração! Agora é só mais um jogo. Para que nos ajudem a encontrar dentro de nós a inteligência de Figo, a força de Maniche e a habilidade de Cristiano Ronaldo e consigamos lidar com outros problemas com a mesma garra! E é bom que, nas “lutas” para os resolver, não marquemos auto-golos.


P.S. Só como graça, recebi ontem, já depois de ter publicado o post, de um amigo que tinha recebido de outro amigo, os seguintes versos:

Esta nossa Seleção,
Que no principio abalou,
Que no meio rematou,
No final embandeirou,
Está a alegrar a Nação,
Tão triste com o Durão.
Brindemos ao Filipão,
Que vai virar Campeão


Já não sei se os que queriam Scolari para primeiro ministro não tinham razão....
publicado por lique às 22:30
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Terça-feira, 29 de Junho de 2004

Irrealidade

f088262p.jpg


Será que o sol brilha?
Talvez a paisagem lá fora
Seja cenário
Talvez a vida
Não seja real
Lua disco prateado
Escuridão túnel de brincar
Talvez eu seja actriz
Em cima do palco
Palavras texto
De uma peça qualquer
Lágrimas de fingir
Talvez a dor não exista
Na minha realidade
(O que é a realidade?)
Talvez eu só seja
Nalguma fantasia
No sonho de alguém
Ambígua identidade.


Março 1990
publicado por lique às 18:54
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Segunda-feira, 28 de Junho de 2004

Existe um rio

rio_noite.jpg


Existe um rio. As casas, as pessoas não vagueiam na minha lembrança. Só sei que existe um rio. Sujeito a marés. O mar, ali perto.
Nas noites quentes, na velha ponte, costumo olhar as águas cumprindo o seu destino, deslizando suavemente para os braços do mar. De onde vêem aquelas águas, que terras fecundaram, quem nelas se banhou? O rio tem nome com sabor a sul e a sol, nome de mouro que por ali terá passado em busca da sua amada, nome doce de enrolar na boca. O rio tem vida. Peixes saltam como se quisessem escapar das águas. Como se o seu destino fosse em terra, atraídos pelo perfume dos jardins. E vidas se cumprem no rio, em direcção ao mar onde outros peixes aguardam. Ouço as conversas dos pescadores nos barcos, a canção, o assobio. E as gaivotas pairam por ali, chamadas por odores que as fizeram deixar o mar. Lá voltarão no rasto dos barcos.
De dia, o rio perde a magia, dissolve-se na azáfama dos carros, das gentes que passam com sol de praia nos olhos e na pele. Mas eu espero. À noite vai reaparecer o meu rio. Lá, eu lavo a alma de toda a poeira acumulada. É para lá que eu vou.

publicado por lique às 17:12
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O fio e as missangas

missangas.jpgEncontro JMC sentado num banco do jardim. Está recatado, em solene solidão, como se só ali, em assento público, encontrasse devida privacidade. Ou como se aquele fosse seu recinto de toda a vida morar. Em volta, o tempo intacto, só com horas certas.
Nunca soube o seu nome por extenso. Creio que ninguém sabe, nem mesmo ele. As pessoas chamam-no assim, soletrando as iniciais : jota eme cê.
Saúdo-o, em inclinação respeitosa. Ele ergue os olhos como se a luz fosse excessiva. Um subtil agitar de dedos: ele quer que eu me sente e o salve da solidão.
- Lembra que sentámos neste mesmo lugar há uns anos atrás?
- Recordo, sim senhor. Parece que foi ontem.
- O ontem é muito longe para mim. Minha lembrança só chega às coisas antigas.
- Ora, o senhor ainda é novo.
- Não sou velho, é verdade. Mas fui ganhando muitas velhices.

E deixámo-nos, calados. Vou lembrando os tempos em que este homem magro e alto desembocava neste mesmo jardim. Acontecia todo o final de tarde. Recordo as suas confidências. Que ele, sendo devidamente casado, se enamorava de paixão ardente por infinitas mulheres. Não há dedos para as contar, todinhas, dizia.
- A vida é um colar. Eu dou um fio, as mulheres dão as missangas. São sempre tantas, as missangas…
Sempre que fazia amor com uma delas não regressava directamente a casa. Ia, sim, para casa da sua velha mãe. A ela lhe contava as intimidades de cada novo caso, as diferentes doçuras de cada uma das amantes. De olhos fechados, a velha escutava e fingia até adormecer no cansado sofá de sua sala. No final, tomava nas suas mãos as mãos do filho e ordenava que ele tomasse banho ali mesmo.
- Não vá a sua mulher cheirar a presença de uma outra – dizia.
E JMC se enfiava na banheira enquanto a velha mãe o esfregava com uma esponja cheirosa. Acabado o banho, ela o enxugava, devagarosa como se o tempo passasse por suas mãos e ela o retivesse nas dobras da toalha.
- Continue, meu filho, vá distribuindo esse coração seu que é tão grande. Nunca pare de visitar as mulheres. Nunca pare de as amar,,,
- E o pai, sempre lhe foi fiel?
- Seu pai, mesmo leal, nunca poderia ser fiel…
- E porquê?
- Seu pai nunca soube amar ninguém…

Agora, tantos anos passados, quase não reconheço o mulherengo homem alto e magro.
- Desculpe perguntar, JMC. Mas o senhor ainda continua visitando mulheres?
Ele não responde. Está absorvido, confrontando unhas com os respectivos dedos. Ter-me-á ouvido? Por recato, não repito a pergunta. Após um tempo, confessa num murmúrio:
- Nunca mais. Nunca mais visitei nenhuma mulher.
Uma tristeza lhe escava a voz. Me confessava, afinal, uma espécie de viuvez. Foi ele quem quebrou a pausa:
- É que sabe? Minha mãe morreu…
Meu coração sapateia, desentendido. Pudesse haver silêncio feito da gente estar calada. Mas esse silêncio não há. E nesse vazio permanecemos ambos até que, por entre o cinzentear da tarde, surge Dona Graciosa, esposa de JMC. Está irreconhecível, parece deslocada de um baile de máscaras. Vem de brilhos e flores, mais decote que blusa, mais perna que vestido. Me soergo para lhe dar o lugar no banco. Mas ela se dirige ao marido, suave e doce:
- Me acompanha, JMC?
- E você quem é, minha flor?
- O meu nome você me há-de chamar, mas só depois…
- Depois? Depois de quê?
- Ora, só depois…

De braços dados, os dois se afastam. A noite me envolve, com seu abraço de cacimbo. E não dou conta de que estou só.



Mia Couto, O fio das missangas


publicado por lique às 07:32
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Domingo, 27 de Junho de 2004

Recados de poetas

Hoje, na Catedral, os poetas deixaram recados para mim e para outros que por aqui andam nesta faina e prazer que é a escrita. Agradeço ao Ognid as belas fotos e a lembrança, com um poema de Sophia de Mello Breyner, uma das que deixou recado.



As imagens transbordam




As imagens transbordam fugitivas
E estamos nus em frente às coisas vivas.
Que presença jamais pode cumprir
O impulso que há em nós, interminável,
De tudo ser e em cada flor florir?
publicado por lique às 22:14
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